As Mulheres da Minha Vida

Toda terca e sexta, durante 365 dias, vou compartilhar textos sobre o que aprendi com as mulheres da minha vida.

Pelo direito de ficar triste.

 

Eu tenho um sério problema (na verdade, eu considero um problema. Minha mãe acha que não): eu sou uma pessoa muito tranquila. Tranquila no sentido de que pouca coisa me perturba, dificilmente fico com raiva de algo ou alguém. É um caso de introspecção crônica (aliás, reclamam que sou muito calado também. Sempre). Minha mãe diz que eu sou a pessoa mais desapegada e tranquila que ela conhece (sei que opinião de mãe não conta. Mas levando em consideração os meus irmãos… acho que ela tem um ponto).

Mas mesmo assim, eu me permito ficar triste várias vezes. Sabe como é, volta e meia a gente cai na besteira de pensar na vida. (se bem que, enquanto estivermos só pensando na vida estará tudo bem. Acho que quando chegarmos a uma conclusão é que ficará perigoso). Eu não tenho problema com a tristeza. Adoro quando ela vem me visitar. Eu fico mais sensível ao mundo. Percebo coisas diferentes. Não quero ficar em depressão, claro. Depressão é doença. Mas não exijo de mim ou de ninguém felicidade absoluta.

Só que a sociedade não pensa bem assim. Temos que ser felizes sempre. E isso influi diretamente em diversos aspectos da nossa vida. É um perigo para todos. Homens e mulheres.

 

É melhor ser alegre que ser triste. Mas ser triste também é ok.

"Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora, o que você me diz?

(…) Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra. 



Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra. 



A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. “.

Esse é um trecho de um texto da Martha Medeiros sobre a tristeza. Tristeza não é uma coisa vil e cruel. Não é um diabo que surge para ser combatido pelo “deus felicidade” que nos livrará desse sentimento maldito que só quer nos destruir.

Miguel Lucas faz a seguinte reflexão sobre a psicologia da felicidade:

”(…) A nossa busca contemporânea da felicidade reduziu (retirou) alguns fundamentos para alcançar a felicidade: uma vida protegida dos sentimentos negativos, livre de dor, confusão e angústia.

Esta definição redutora de bem-estar e felicidade deixa de fora a melhor metade da história, a alegria e o propósito que obtemos de uma vida significativa. É o lado oculto da felicidade, a qualidade extraordinária que admiramos nos homens e mulheres que pretendemos cultivar nas nossas próprias vidas.

Algumas das pessoas que sofreram desaires, que foram forçados a enfrentar os choques  e traumas que nunca julgaram ter de enfrentar e conseguiram repensar o significado das suas vidas, podem ter mais a dizer-nos sobre  o significado da vida, da felicidade e bem-estar de uma forma profunda e intensamente do que provavelmente eu próprio ou alguns filósofos que procuram explicar o significado da vida”.

 

Há alguns anos, um cara entrou atirando em uma escola infantil nos EUA. Foi um massacre. No meio das notícias do jornal, de todas as declarações de dor e perguntas do tipo “como você está se sentindo” (como se alguém fosse dizer que estava muito feliz com isso tudo - sabe como é, seu reporter, ter criança dá trabalho. Esse cara me economizou uns muitos dólares em brinquedos e material escolar. Estou aliviado), no meio de tudo isso, o pai de uma das crianças assassinadas diz a seguinte frase:

"Ao seguirmos em frente a partir do que aconteceu aqui, o que aconteceu com tanta gente, que isso não seja algo que nos defina, mas que nos inspire a ser melhores. Que tenhamos mais compaixão e sejamos mais humildes"

O que mais me intrigou na fala dele, é “por que ele pediu para sermos melhores?” no lugar de pedir para sermos “felizes”?

O desejo de “ser feliz” tem o grande problema de ser um desejo completamente inalcançável. Felicidade é um sentimento e, como todo sentimento, é passageiro.

Mas e se no lugar de pedir para sermos melhores, o pai da criança tivesse pedido para sermos felizes?

"Ao seguirmos em frente a partir do que aconteceu aqui, o que aconteceu com tanta gente, que isso não seja algo que nos defina, mas que nos inspire a tentarmos ser felizes."

Soa estranho para você? A mim soa.

O que faz uma pessoa se sentir bem é algo muito pessoal e, por isso, egoísta. Se isso é o que se coloca como prioridade na vida, um sentimento efêmero, como esperar ser melhor para o resto da vida com algo que é finito?

 

A indústria da felicidade.

Dinheiro não compra felicidade. Mas compra prazer, que pode ser confundido com felicidade. Pelo menos é assim que a sociedade nos ensina.

A sociedade cria regras, normas e caminhos a serem trilhados se você quiser ser feliz. Quais virtudes você deve ter. Que você não deve ficar triste porque tem gente pior que você no mundo. Falta só um chicotinho nas nossas costas com alguém gritando “Sorria, ingrato! Sorria!”.

Sergio Gleiston explica como funciona a indústria da felicidade:

”(…)A necessidade de aceitação social que antes estava ligado mais a habilidade pessoais, como, por exemplo, ter uma boa conversa ou ser engraçado, agora relaciona-se diretamente com a aquisição de um produto sofisticado que lhe confere um status diferenciado. Não possuir produtos da moda, gera, pois, insatisfação e sentimento de culpa por não ter atingido o ideal fabricado de felicidade”.

Esse produto, aliás, pode não ser apenas um produto. Pode ser você mesmo. Compre e se torne uma pessoa melhor, mais bonita. Não por acaso, a industria da beleza é uma das que mais lucra. Como ela faz isso? Dizendo que você só vai ser feliz sendo bonita.

Ou, como diz a Aline Valek (sim, ela de novo), que você não pode ser esteticamente incorreta:

(…) Vez ou outra me olho no espelho e fico decepcionada com a desgraça que é minha cara, desejando que eu fosse outra, desejando ser bonita – e me sinto ainda pior quando vejo que eu simplesmente não consigo amar a minha aparência ou simplesmente cagar para essa armadilha que é o padrão de beleza. É muito ruim o sentimento de não ser “adequada” a um padrão, mesmo que a gente o rejeite – mesmo que a gente queira destruí-lo.

Porque esse sentimento de inadequação é uma cicatriz que o patriarcado me deixou, bem no meio da cara, para me lembrar de que ele é tão mais forte do que eu, que nem sendo alguém que luta diariamente contra a opressão que ele promove, eu consigo me livrar totalmente de seu poder.

Então ficamos dando essa importância toda à beleza, ainda que seja aquela beleza ~exótica~, incomum, fora do padrão, como se não fosse possível ser feia; afinal, aprendemos, desde cedo, que a principal missão de uma mulher neste planeta é ser bonita.

(…) Ninguém precisa ser correta para os padrões de beleza (ou bonita, de qualquer forma que seja) para ter autorização para existir. É aí que eu percebo que, talvez, o que eu precise gritar para o mundo não é que eu sou bonita, mas que foda-se se eu não sou.

Eu não tenho que ser bonita.” 

 

 

Vamos aos finalmentes

Você deve estar achando que eu estou maluco. Confuso. Como posso num blog que falo sobre as mulheres da minha vida ficar falando de felicidade. Virei auto-ajuda barata.

Mas, calma, jovem padawan. Era preciso fazer toda essa introdução de três parágrafos para entendermos como somos cobrados pela pressão de “ser feliz”, sem sequer entender o que é felicidade ou tristeza. Todos queremos matar o bandido, dar o beijo no fim do filme e cavalgar rumo a felicidade num lindo horizonte ao pôr-do-sol (peraí que escorreu uma lágrima agora).

Feminismo é um paradoxo social para a felicidade. Porque, ao mesmo tempo que, com a revolução feminista, as mulheres estão mais infelizes - porque agora elas tem que sair para trabalha E cuidar da casa, já que ainda não estamos no ponto onde o homem divide as tarefas da casa, por exemplo - as pessoas (homens e mulheres) feministas são mais felizes - porque sua vida sexual é melhor, os relacionamentos são mais estáveis, porque a igualdade de gêneros constroem namoros mais felizes, já que homens feministas apoiam e entendem melhor suas namoradas, que por sua vez dividem as despesas do casal e livram esse peso da obrigação ser unicamente masculina. E note que a felicidade, neste caso, é consequência de algo que gerou infelicidade de uma outra forma.

Felicidade e tristeza são sentimentos. E sentimentos são de responsabilidade unicamente nossa. A sociedade vai sempre tentar vender um conceito do que é ser feliz “você só vai ser feliz se tiver um marido maravilhoso”, “você vai ser feliz se for um homem que todas as mulheres desejam”, “você vai ser feliz se tiver um homem alfa com a bola do saco azul” e assim por diante.

Cabe a cada um pensar sobre o que nos é dito e se tristeza realmente é esse monstro de sete cabeças ou apenas um sentimento humano que precisamos aprender a lidar, porque sempre vão dizer que isso é “falta de piroca” ou de “louça para lavar”.

Um dia eu estava conversando com uma amiga sobre “ser feliz” e ela me disse:

"Mas Diogo, eu quero ser feliz. Ou, pelo menos, não quero ser triste."

É claro. Todos queremos. Ninguém aguenta a dor eternamente (se aguenta, é um pobre atormentado).

Mas ninguém tem que ser triste por não conseguir alcançar a felicidade absoluta. Porque, acredite, ninguém vai. Se uma pessoa disser que ela é feliz, está mentindo.

Ela pode ser sim, bem de vida, ter poucos problemas, ter uma vida com menos dificuldades, amar alguém que a ame também. Mas assim como tudo que é efêmero, isso é transitório. Uma hora acaba. Mas uma hora volta. É por isso que existe a felicidade: porque existe a tristeza.

Se todo mundo fosse feliz, ninguém seria feliz. O conceito, felicidade, simplesmente não faria sentido.

Acredito que a tristeza ou a felicidade, se é que há tristeza ou a felicidade, está nas coisas que você pode fazer, mas não faz. O que pode mudar, mas não muda. Como nós mesmos, por exemplo.

 

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