As Mulheres da Minha Vida

Toda terca e sexta, durante 365 dias, vou compartilhar textos sobre o que aprendi com as mulheres da minha vida.

O paradoxo do homem masculino.

Nesse mundão maluco que é a internet, não é raro encontrar homens e mulheres dizendo para feministas (mulheres feministas, para ser mais exato) que o problema delas ou é “falta de rôla” ou então que ela tem “medo de pau”.

Não entendo muito bem esses argumentos. Primeiro, porque se rôla for a solução para todos os problemas do mundo, os exércitos estão gastando bilhões desnecessariamente se armando com polvora e tecnologia. Bastava entregar caralhos para todos os soldados e a guerra seria vencida. E até imagino a cena: aviões da ONU sobrevoando a África e atirando milhares de caixas cheias de pirocas para solucionar a fome. Quem sabe eles não cavam um buraco com um dildo e acham uma fonte vitalícia de água no meio da savana africana? Fica aí a dica, Chefes de Estado.

O segundo, também não faz sentido. Eu sei disso porque conheço muitas garotas feministas. E elas já me contaram que tem a gaveta cheia de caralhos dos mais variados. Grandes, pequenos, coloridos, em formatos diferenciados, com aroma, que vibram… é uma festa, minha gente. Só quem já entrou em uma Sexshop sabe. Então não se pode dizer que elas tem medo de pau. Aliás, os de verdade são até bem-vindos. O problema é que eles vem grudado a homens que, muitas vezes, não fazem o esforço de ter aquilo valer a pena. Sabe como é né. Nem toda promoção de compre um e leve outro vale tanto a pena.

Além de não fazer sentido, isso não tem nada a ver com a luta feminista. O que pra mim só mostra como o falo tem um peso grande na nossa cultura machista. 

 

Falocêntrico e Falofóbico.

No meu último texto eu falei como o falocentrismo é uma constante na nossa sociedade. Conversando com a Aline Valek, ela soltou a seguinte questão: não é engraçado como homens podem ser falocêntricos e ao mesmo tempo falofóbicos?

Eu diria mais. Mais que falofóbicos, são itifalofóbicos. Não sabe o que é isso? Então invocarei aqui as minhas aulinhas de tele-curso 2000: é hora da revisão.

Falofobia é a aversão ou medo de falos. Também conhecido como pau, caralhos e afins. A itifalofobia é o medo de pênis ereto. E, para o machão, o que causa mais aversão que um pau? Só mesmo um pau ereto.

(Aliás, no FAQ feminista da Aline, ela tem uma resposta muito boa para aquela questão de quando dizem que “feministas são mal comidas”:

Feminismo não é um livro de regrinhas que impede você de fazer coisas legais. O nome disso é cristianismo, feminismo é OUTRA coisa. O feminismo quer quebrar todos esses padrões que aprisionam as mulheres, inclusive em relação ao próprio corpo. Mulheres que percebem que podem amar o próprio corpo, que podem ter muito prazer no sexo e não apenas fazer sexo para dar prazer ao homem, que se despem do moralismo e da vergonha que tentam colocar sobre o sexo, não só dão de quatro, como dão de cinco, de seis, de quadradinho de oito, gozam e fazem coisas inimagináveis para essa sua cabecinha formatada pelo pornô mainstream que nem é sexo de verdade. Ou seja: feministas fodem bem melhor.”

Olha, eu assino embaixo e digo mais: se a feminista for mal comida, mesmo assim a culpa ainda não é dela. Pense nisso)

Voltando a falofobia.

Eu já falei aqui sobre como a sociedade encara o sexo, em como a sociedade é falocêntrica e agora em como ela é falofóbica. Pelo menos do lado machista da coisa. É muito curioso ver como uma coisa está diretamente ligada a outra.

Veja bem, falofobia, enquanto doença, é muito rara. Mas como comportamento, é tão comum que é até normal. Na verdade, você não ter nojo ou aversão a um pau, é coisa de viadinho. Ignore completamente que aquilo é apenas uma parte do corpo humano. Você tem medo dos braços do seus amigos? Então porque tem medo do pau dele? Ele não morde. Pode ficar tranquilo.

Mas vamos ver o que a psicologia tem a dizer da falofobia:

A causa da fobia ainda intriga especialistas. Os profissionais da área tentam compreender a falofobia dentro do contexto das fobias em geral. E um dos principais componentes da fobia é a ansiedade. Mas não há como especificar a razão desencadeadora do problema, representado pelo medo mórbido irracional, desproporcional persistente e repugnante ao pênis.

(…) Nas pesquisas pela rede, consegui achar algumas propostas de tratamento para a falofobia. Uma delas, que já é utilizada no tratamento das fobias em geral, é por meio da terapia cognitiva comportamental. Consiste na identificação do nível de ansiedade do indivíduo para, a partir daí, tratar suas reações e conseguir a superação aos temores de forma gradativa. Conjuntamente, faz-se um trabalho com a história de vida da pessoa, a sexualidade. Isso porque a falofobia pode até ter relação com a questão da educação sexual da criança.

Principal mesmo é que a pessoa que identifique qualquer um dos sintomas relatados acima procure um especialista. A nossa sociedade ainda guarda muita resistência quando o assunto é sexo. E, pior que isso, as pessoas acabam interiorizando estas questões sociais e optam por esconder o problema.”

Basicamente, o que ele está dizendo em psicologuês é que: se você tem medo de olhar para o lado quando está no mictório com outro homem, se sente desconforto ao ver outro cara com o pau pra fora, etc, provavelmente essas condições foram criadas na sua cabeça durantes os anos. Ou você nunca reparou que crianças não tem vergonha do “mostra o seu que eu mostro o meu”? 

 

A prisão que parece libertar

Me lembro bem de uma cena de um filme chamado Dr. Holywood (não, não é o Dr. Rey) com o Michael J Fox. No filme, ele é um médico recém-formado que estava indo até Los Angeles de carro fazer uma entrevista de emprego. No meio do caminho, ele bate o carro, destrói uma cerquinha e é condenado a prestar serviços comunitários na cidade. Em uma consulta com um casal que tentava engravidar ele perguntou: durante o sexo vocês testam posições diferentes? Nisso, o casal se entreolha e pergunta “existe mais de uma posição?”.

Um texto da Lola sobre o Kinsey, diz:

”(…) as sociedades ocidentais têm uma abundância de saber sobre o sexo. Há diversos estudos científicos e pseudocientíficos que revelam “a verdade” do sexo e o que é o “normal” no sexo. Tais discursos acabam reafirmando o desconhecimento do indivíduo sobre seu corpo e seu desejo, e o englobando em categorias que o qualificam como uma pessoa normal ou não.”

Ela ainda diz que é graças a essa normatividade sexual que surgem capas de revista como “aprenda a levar sua parceira a loucura” ou “10 maneiras de chegar ao orgasmo”. É uma forma de “incentivar” a libertação sexual. Como se a libertação fosse ocorrer de uma forma imperativa.

Mas eu dei essa volta toda para dizer o seguinte: você não é homem. Você não é mulher. Pelo menos não na concepção do que seria um homem e uma mulher. Ninguém tem 100% de certeza na hora de definir a sexualidade. Como é dito no livro Diferentes Desejos:

”(…) A nossa sexualidade, em suma, compõe-se de uma combinação do corpo que temos (nosso sexo biológico), das pessoas por quem sentimos desejo (nossa orientação sexual), de quem achamos que somos (nossa identidade sexual) e como nos comportamos (nosso papel sexual). Cada pessoa tem uma combinação toda sua desses quatro espectros de sexualidade, e é perfeitamente natural que boa parte de nós seja diferente do modelo de homem 100% hétero machão e mulher 100% hétero fêmea em algum aspecto. Como vimos, os modelos perfeitos é que não correspondem ao que a maioria de nós realmente somos.

O que podemos perceber, se olharmos à volta com calma, é que as pessoas são diferentes, mas isso não é problema. Problema é quando somos desonestos, cruéis, intolerantes. Quem cada um de nós ama, como cada um de nós tem prazer, não é problema, e talvez faça parte da solução.”

Fiz dois textos seguidos falando de pau, de propósito. Quem sabe consigo gerar a afirmação “ele só fala de pau?”.

Por que eu “só falo de pau”? Porque falei de pau em dois textos seguidos? E todos os outros 50 falando de mulheres e como a sociedade trata delas? Por que a torcida de nariz? Por que imcomodaria?

A falofobia tem um sentido muito próximo ao medo da castração, no sentido simbólico da palavra, óbvio. Freud, Lacan e esse texto explicam:

(…) a fobia não foi tida por Freud como um processo patológico independente, e sim como uma síndrome, que ele denomina histeria de angústia;

logo, aponta pelo próprio nome, para uma semelhança entre a histeria e a fobia, mantendo como diferença o fato de, na segunda, não haver conversão, mas sim forte presença da angústia.

Ter um outro homem com um pau, é uma ameaça constante. “E se o pau dele for maior que o meu?”.

Ser falocêntrico e falofóbico é um problema. É como exigir que o universo gire em torno de si, como os planetas giram em torno do sol. O problema é que também não podem haver outros sois maiores que você, com seus próprios planetinhas imaginários. Esse paradoxo (que como aprendemos ali com Freud, é constante) tem a consequência de deixar a pessoa falocêntrica e falofóbica sempre na defensiva. Tudo que se torna uma ameaça e deve ser suprimido.

Só pode haver um highlander. Então cortem-lhe a cabeça.

Deve ser triste viver assim.

  

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