As Mulheres da Minha Vida

Toda terca e sexta, durante 365 dias, vou compartilhar textos sobre o que aprendi com as mulheres da minha vida.

Bolsa familia e as coisas de mulher.

"Em alguns casos, a igualdade realmente foi alcançada, mas vejo apenas como conquistas ocasionais, progressos pontuais. Talvez as mulheres já tenham alcançado a igualdade de direitos no Brasil, ou os brasileiros estejam confiantes de que isso vá acontecer. A relação marido-mulher como senhor-servo não tem solução. Enquanto a mulher tiver todo o trabalho doméstico, como cuidar de crianças e idosos, nada poderá mudar. Nenhum país teria PIB o suficiente para pagar a dívida dos serviços não remunerados (e não reconhecidos) feitos pelas suas mulheres."

Essas palavras foram ditas pela escritora Elfriede Jelinek em uma entrevista. Em poucas palavras ela reduziu como basicamente, apesar de muitos avanços, nossa sociedade anda mais para o lado que para frente na questão da igualdade de gêneros. É uma coisa institucionalizada a ponto de haver leis que, na busca por tentar melhorar a vida das mulheres, só ratificam como o mundo trata mulheres de forma diferente. Inferior.

A lei que propões a criação de vagões exclusivo para mulheres no metrô, diz que essa medida é necessária para quando as mulheres estiverem desacompanhadas. Como assim, Bial? A própria lei diz que a mulher sozinha não tem como se defender. E mais, que não há como o Estado controlar os homens que insistem em se esfregar nas mulheres, como se elas existissem unicamente para lhe satisfazer.

Como disse a Nádia Lapa no seu texto sobre o assunto:

"O grande problema é que a proposta só parece uma boa ideia, mas na verdade ela reitera a cultura que impõe às mulheres a responsabilidade pela própria integridade, quando o cerceamento de liberdade deveria focar no agressor. Toda mulher aprendeu desde cedo a "se cuidar", evitando ruas desertas ou escuras, olhando com desconfiança para a abordagem de desconhecidos, cobrindo o corpo para não ser assediada. Quando qualquer coisa acontece, a mulher acredita que de alguma maneira concorreu para a agressão, como se não tivesse se "preservado o suficiente".

(…)A proposta busca maquiar um problema cultural sério, que envolve a falta de projetos efetivos para o combate ao machismo e à violência sexual. É preciso repensar não apenas o papel do Estado na promoção de valores de respeito à dignidade humana, passando pela melhoria nas condições de atendimento às vítimas de assédio. Também precisamos analisar em que cultura o abuso sexual é aceito e a vítima é motivo de piada, como no conhecido quadro do programa Zorra Total. O trabalho é de todos nós. E a culpa nunca é da vítima.”

Politicas públicas são um fator importante no combate ao machismo. São elas, por exemplo, vão dar apoio legítimo as mulheres na busca pela igualdade. E, por incrivel que pareça, as vezes esse apoio vem de um programa que sequer visa essa função, mas acaba por dar um poder as mulheres que antes elas não tinham. 

 

Grande sertão

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O documentário Severinas mostra como o Bolsa Família provocou uma revolução para as mulheres mais pobres do interior do Nordeste. Eu, particularmente, acho um dos programas mais bonitos que o nosso governo já fez e fico muito triste em ver o preconceito que ele gera em algumas pessoas. Mais isso é uma opinião pessoal minha.

O que acontece é que, o diferencial do Bolsa Família em relação a outros programas que o governo já tenha tentado implantar é que, o dinheiro que ele fornece é dado única e exclusivamente a mulher. Menos de 10% dos casos o beneficiário é um homem. São elas que podem sacar esse dinheiro e usar.

Mulheres que antes só cuidavam da casa, agora recebem para cuidar da casa e não precisam enfrentar duplas jornadas de trabalho e podem se dedicar unicamente a cuidar e educar os filhos. É nosso governo usando um pedaço do nosso PIB para pagar aquelas mulheres que não tem o trabalho doméstico reconhecidos como trabalho, do qual a Elfriede falou no começo do texto. Elas começam a ter um poder e identidade que antes não possuíam. 

Eu chorei ao ouvir a mãe dizer que , hoje, a filha dela já tem coisas que ela, quando criança, nunca teve. Que os filhos dela não passam fome. (sabe como é. Também sou nordestino)

No texto sobre o tema, Walquiria Leão Rego e Alessandro Pinzani - que fizeram um estudo sobre o impacto do programa - disseram o seguinte:

“A libertação da ‘ditadura da miséria’ e do controle masculino familiar amplo sobre seus destinos permite às mulheres um mínimo de programação da própria vida e, nesta medida, possibilita-lhes o começo da autonomização de sua vida moral. O último elemento é fundante da cidadania. (…) Quando você tem um patamar de igualdade mínimo, você muda a sociedade. Claro que as coisas não são automáticas. Isto não pode ser posto como salvação da nação, mas é um começo.”

Essa pequena quantia é um pequeno começa para uma grande mudança. Podem chamar de esmola. Mas é uma esmola com que as mulheres poderão adquirir coisas que a ajudarão mais a frente. 

 

A máquina de lavar e as trompas.

Tem um argumento dos “contra Bolsa Família” que não faz o menor sentido pra mim. É o famoso “quem recebe ela, vai ficar fazendo filhos e mais filhos para receber mais dinheiro”. Provavelmente quem diz isso nunca teve que cuidar de um filho. Ou se já teve, é pior ainda, porque sabe como é e ainda assim fala uma bobagem dessas. É comparável a um homem que diz que a mulher só teve o filho para garantir a pensão do Pai. Se é tão bom assim, me pergunto por que o pai então não pede a guarda do filho e deixa de pagar pensão, já que é tão mais fácil cuidar de uma crianças por, pelo menos, 18 anos.

No próprio texto que linkei acima, a socióloga diz que a maioria das mulheres ouvidas por ela queriam exatamente o contrário: não ter mais filhos.

Luzia conseguiu realizar o sonho de diversas das mulheres ouvidas pela socióloga Walquiria Leão. Ela juntou R$ 50 e seguiu para o hospital da cidade vizinha, de São Raimundo Nonato para fazer laqueadura das trompas: “se tivesse mais filho a vida ia ser mais pior”. Segundo Walquíria, o desejo de controlar a natalidade foi manifestado por diversas das mulheres que ela entrevistou entre 2006 e 2011 em Alagoas, Vale do Jequitinhonha, Piauí, Maranhão e Pernambuco.

(…)Em maio o valor do Bolsa Família de Luzia saltou de R$ 70 reais para R$ 212. A mãe comemora: “Agora já posso comprar as coisas para minha filha: a sandália dela arrebentou e pude comprar outra”. No pé da menina, o calçado que custou R$ 7,50. “Primeiro comprei para a menina, num outro mês compro pra mim”, explica Luzia, com os pés descalços.”

Bastava apenas 50 reais para ela ir ao hospital na outra cidade. Em São Paulo, você gasta isso indo a um jantar em um restaurante não muito caro, uma ida a balada ou ao cinema 3D MAX. Se tudo o que eu preciso para que mulheres realizem esse sonho fosse dar 50 reais, pago o imposto com o maior orgulho se a balada que eu deixei de ir virar a realização desse desejo dessas mulheres.

E essas mulheres querem consumir. Querem uma vida melhor para elas e para seus filhos. Elas querem uma máquina de lavar.

 

Esquizofrenia política.

Uma amiga minha me perguntou se eu não me sinto culpado por trabalhar com publicidade e para o capitalismo. Ao ouvir minha negativa, ela ficou estupefata e disse: você é de direita!

Não sou de direita. Eu simplesmente não gosto de subestimar as pessoas.

Meu sonho, minha utopia, é que todos possam ter o que precisarem, quando precisarem e poder escolher como conseguirão isso.

Mas, para isso, o governo precisa ouvir a sociedade quando ela clama por mais políticas públicas em busca da igualdade, como explica a Barbara Lopes:

”(…) o Estado tem um papel importante para mudar a vida das mulheres. Entender as medidas que melhoram a situação das mulheres como políticas públicas também significa que elas não devem ser isoladas, mas parte de uma estratégia. A existência dessas políticas tem também um poder simbólico – que precisa ser confirmado na prática, com a efetivação dessas políticas.”

Quando digo que não me arrependo nem acho ruim eu trabalhar com publicidade é que com isso eu também tenho a chance de participar. Se eu estou no processo direto de criação de uma comunicação, acho que é meu dever não criar uma peça publicitária que reforce estereótipos e preconceitos. Não colocar a mulher como única responsável pela limpeza da casa, por exemplo:

Mas te confessar que é uma luta muito árdua viu? É preciso brigar muito para isso.

Mudar o quadro em que estamos requer um esforço político, da sociedade e, principalmente, individual.

Vou exemplificar usando um último trecho do texto sobre as Severinas:

Luzia trabalhou na roça, passou fome, perdeu madrugadas subindo a serra para talvez voltar com água na cabaça. “Quando tinha comida a gente comia, se não, dormia igual passarinho”, diz. Trabalhava sem salário, sem nenhum direito trabalhista, sem saber como seria a vida se a seca não passasse e a chuva não regasse o feijão e a mandioca. Era “a escravidão”.

O Bolsa Família deveria deixar de ser um programa de um governo isolado e se tornar uma política pública permanente. (não sou só eu que digo isso, é a ONU).  Ele é um pontapé inicial para mudar a vida de muitas pessoas, individual e coletivamente.

Por isso, não entendo quando a classe média chama médicos cubanos de escravos, mas reclamam se o governo cria um programa que, indireta ou diretamente, ajuda mulheres a saírem da escravidão histórica do patriarcado e de seus maridos.

Depois eu que sou esquizofrênico político.

 

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