Cabelo? Curto!

- Tô fazendo o texto de hoje sobre mulheres de cabelo curto. Desembucha!

-  Bem, você ouve homens dizendo que “você era tão linda de cabelo grande…” e mulheres dizendo “que coragem! acho lindo mas os homens preferem cabelão”.

A família põe a sua sexualidade em debate. Minha mãe fica todo tempo checando a roupa que vou sair para ver se estou “feminina” o suficiente.

Mas eu me sinto incrivelmente bem de cabelo curto. Sempre tive um cabelo no padrão por ser liso e tal. Por isso falam que é um desperdício usá-lo curto,

mas enfim, eu nunca o achei bonito o suficiente.

Quando eu tinha uns 10 anos comprei uma chapinha e minha mãe deixou!

Agora tô há quase 2 anos sem usar nadica de nada e nem dou escova.
Logo que cortei, as pessoas teciam comentários e tal. Eu demorava pra entender que era por causa do cabelo.

Essas frases acima são de uma amiga falando - rapidamente, diga-se - sobre como é quando você corta o seu cabelo curtinho, no estilo “Joãozinho”. Por que “Joãozinho”? Porque, obviamente, cabelo curto é coisa de homem.

Mulher tem que ter cabelo grande, lindos e sedosos. Ou não.

Uma das coisas que me incomoda quando se fala de cabelo curto é que “a maioria dos homens preferem cabelos compridos”.

E?

Aliás, o argumento é que “cabelo comprido é feminino”. É nessa horas que eu gosto de invocar a da Sisi (como eu chamo carinhosamente a Simone de Beauvoir) quando ela diz:

“Não acredito que existam qualidades, valores, modos de vida especificamente femininos: seria admitir a existência de uma natureza feminina, quer dizer, aderir a um mito inventado pelos homens para prender as mulheres na sua condição de oprimidas. 

Não se trata para a mulher de se afirmar como mulher, mas de tornarem-se seres humanos na sua integridade.”

Me pergunto o quão é frágil o conceito de masculinidade para precisar de um ícone de feminilidade, teoricamente oposto ao seu, para se manter bem com sua conduta de vida. Cabelo comprido não é mais feminino. É somente cabelo, que por acaso é comprido.

O mesmo vale para homens que usam cabelos compridos. Uma das minhas passagens preferidas do musical Hair é quando um dos hippies se recusa a cortar o cabelo e a psicóloga da prisão pergunta se ele é homossexual. Ele diz que não, que quer apenas usar o seu cabelo longo. Quer a liberdade para usar o cabelo como ele quiser.

“Ah, Diogo, mas hippie não conta. Eles eram sujos e desgrenhandos. Nem se depilavam.”

Olha só, você por aqui, meu comentarista reaça que vive na minha cabeça? Não sabia que você ainda lia meu blog.

Mas, pois bem, que tal então você poder na sua cabeça (sua cabeça que está dentro da minha cabeça… complexo isso, aliás) que tudo isso não passa de uma construção social?

Na década de 20, a moda era o corte Chanel.

No Egito antigo era mais legal ainda. As mulheres raspavam toda a cabeça.

Hoje, uma mulher que corta o cabelo curtinho é considerada “corajosa”, como disse minha amiga. Uma rebelde. Alguém que tem algo de diferente. E daí surgem os questionamentos de “por que ela fez aquilo?”.

“Você queria economizar xampú?”, “você virou bi?”, “ah, mas já já cresce de novo”, “você tá com câncer?”.

Fazendo a pesquisa para esse blog, encontrei um blog de uma mulher que dá dica para outras mulheres, em que ela diz que o “problema” do cabelo “joãozinho” é que aí você ter que estar sempre bem maqueada, porque a pele tem que estar boa, porque realça as espinhas. Oh, o horror.

Curioso quebrar um padrão social e se preocupar com outro, mas enfim.

A primeira grande supermodelo do mundo se chama Twiggy. Nos anos 60, ela surgia com seu visual andrógeno (não curto essa palavra, mas era assim que rotulavam seu visual).

Todo mundo aplaudiu, foi um corre-corre aos salões de beleza e esse corte está aí até hoje (mas pergunte a qualquer cabeleireiro e ele vai comentar sobre diversas garotas que pediram esse corte e choraram depois que viram seus cabelos curtos).

A docinho de magia Emma Watson era proibida de cortar o cabelo enquanto estivesse fazendo parte do elenco de Harry Potter. Depois do último filme ela não só cortou como ficou tchutchuquinha para estrelar o maravilhoso As Vantages de Ser Invisível.

Outro dia, ouvi (ou li) alguém, que eu não lembro agora quem era, fez uma reflexão a esse fato. Por ela ser um ícone para as adolescentes e garotas da atualidade e por ter cortado o cabelo assim, quantas garotas ela não libertou da chapinha, por copiarem esse penteado?

Mas a pergunta que eu deixo aqui é: a quem afeta o fato de uma mulher querer usar o cabelo curto, se não somente a ela? Digo, qual o maior problema? Por que se incomodar por isso?

Você não acha bonito cabelo curto? Ou black power? ou cacheados? ou crespos? ou pelos pelo corpo?

Bem, sabe de quem é o problema com isso? Seu, unicamente seu. Quem está incomodado aqui é você.

Então, talvez - só talvez - o problema não esteja realmente na cabeça das mulheres, não é?

 

 

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