Homens, calem a boca e escutem.

Existe uma frase do Larry King que eu gosto muito. Ela diz:

“Eu lembro a mim mesmo toda manhã que nada do que eu disser neste dia me ensinará coisa alguma. Portanto, se eu pretendo aprender, devo fazê-lo através de ouvir”.

Em um dos F.A.Q.s que respondi aqui no blog, perguntaram como eu me tornei feminista.

Basicamente, eu sempre tive muitas amigas. Por algum motivo, me dou melhor com mulheres que homens e ouvindo todas as coisas que elas me relatavam, descobri um mundo que não era o meu.

O que me leva a como cheguei ao post de hoje.

Vendo o webprograma do Coletivo Chute (que está linkado aqui no post, em três partes, e tem a docinho de abóbora @alinevalek) em que falam sobre a pesquisa Chega de Fiu-fiu, a Juliana de Faria comentou que, após ela por a pesquisa no ar, muitos homens falaram para ela que eles não imaginavam como aquilo afetava as mulheres.

A primeira coisa que pensei foi “aparentemente, esses caras nunca devem ter conversado muito com as mulheres”. A grande maioria das minhas amigas, por exemplo, tem algum caso de assedio para contar em algum momento da sua vida.

É uma coisa horrível e não há como você querer que um quadro como esse se mantenha do jeito que está. Afinal, qual o tipo de mundo queremos deixar para nossas crianças?

Por isso, esse texto de hoje é para falar especificamente com você, homem. Estou aqui para pedir que cale a boca e ouça o que as mulheres tem a dizer.

Na, na, na. Shhhh… não conteste. Cale a boca. Você já fala muito, não?

Para começar nessa sua nova fase de ouvinte (afinal, a partir de agora você vai calar a boca e ouvir, não é? Diz que sim) vou te ensinar uma coisa: um bom ouvinte tenta entender o que a outra pessoa está falando.

Você pode até discordar, mas antes você tem que saber exatamente do que é que você está discordando.

Eu sei, é até irônico: um homem falando para outros homens pararem de falar. Mas pense nisso como uma nova skill que você está adquirindo.

Vou te falar uma coisa que talvez você não saiba, se você é o tipo de pessoa que não ouve: o mundo é maior que a sua cabeça.

Sério. Somos 7 bilhões de pessoas no mundo. Não é possível que você saiba tudo sobre elas. Na verdade, você não sabe tudo sequer sobre você.

O aprendizado se dá de duas maneiras. Ou você vive ou alguém te passa a experiência que ela teve.

Sua mãe pode ter dito várias vezes para você não enfiar o dedo na tomada. Mas você só entendeu o que ela quis dizer quando você enfiou o dedo na toma. Aprendeu e nunca mais repetiu (pelo menos espero que nunca mais tenha repetido, seu masoquista).

A outra forma é alguém te dizer o que ela viveu, as coisas que ela sofre, as coisas que ela aprendeu ouvindo outras pessoas e vivendo a vida.

Mas quando falamos em feminismo, a relação homem x mulher, o aprendizado só se dá pela experiência das mulheres. Nós, homens, não temos como vivenciar isso. Homens não tem como enfiar o dedo na tomada do machismo para saber como as mulheres se sentem. O machismo não lhes dá choque. Não se sente na pele.

Talvez aí você descubra que sua namorada, suas primas, sua mãe, sua irmã já deixaram de fazer algo ou ir a algum lugar (passar na frente de uma obra, passar por um grupo de homens) por medo de serem assediadas. Ou que elas já trocaram de roupa antes de sair com medo desse assedio. E pior, descobriram que não adianta trocar de roupa para tentar evitar o assedio. E que elas não respondem a esse assedio na rua por medo.

Você sabia disso? Pois bem, meu jovem. Sua namorada, sua mãe, suas irmãs poderiam ter dito isso para você, se você tivesse conversado com elas. E aí talvez você pensasse duas vezes antes de mandar um “gostosa” no ouvido de alguém na rua.

E veja, estou falando apenas de um dos problemas aqui: o assédio. Existem tantos outros, que eu não saberia enumerar (até porque eu não sofro com eles). Mas sua mãe, suas irmãs e suas namoradas podem lhe dizer.

E, enquanto estiver ouvindo (agora que você vai calar a boca e ouvir. Você vai, não vai?), não tente retrucar. Sei que é dificil só ouvir. Mas é fundamental. Sua mãe, irmãs e namoradas não estão exagerando. Não é xilique. É algo importante para elas e deveria ser para você também.

A gente só muda quando aprende algo. Ouça, humildemente. Mas ouça de verdade.

Ouvir é a ideia maluca que talvez, só talvez, a gente não saiba tudo sobre tudo.

Porque a ignorância só é uma benção para quem não sofre com ela.

 

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