Matutando com os botoes.

 

Essa semana, lendo a casa dos A Casa dos Budas Ditosos, me deparei com o seguinte trecho:

“(…) A manobra de pegar no pau. Pegar no pau de forma que ele pense que é a primeira vez em que a indigitada pega num pau: nunca tomar a iniciativa e, apenas na terceira ou quarta tentativa, deixar, toda relutante e pudica, que ele puxe sua mão. (…) E aí, a princípio sem muita convicção, mas logo fazendo progressos, você passa a apertar à vontade e até a abrir a braguilha dele, que naquele tempo era de botão e nunca de fecho ecler, já que fecho ecler, para os machos mais ciosos de sua machidão, era coisa de veado…”

Ao ler a afirmação “fecho ecler, para os machos mais ciosos da sua machidão, era coisa de veado”, me veio a cabeça muitas lembranças. Como a que, por exemplo, homem lavar o cabelo com xampú era coisa de veado (no máximo, um sabonete).

O mundo é cheio de “coisas de veado”, até que ela deixem de ser coisas de veado. Você, homem, que usa zíper na sua calça, já seria taxado de veado por esses outros homens dessa época. Você que lava o cabelo com xampú (e olha que nem estou falando de condicionador), também.

“Tá me estranhando cara?”, provavelmente você diria, senhor reacionário que vive na minha cabeça. Mas quantas coisas não são taxadas de “coisa de veado” hoje em dia.

Amigo, se você andasse pela Augusta com esse seu fecho eclair, corria sério risco de se chamado de “veadinho” e apanhar de um grupo de homens que usam apenas botões em suas calças.

Rídiculo, não é? Pense nisso na próxima vez que quiser chamar alguém de veadinho por algum comportamento.

Aliás, melhor, comece não chamando ninguém de “veadinho”. Achar que “insultar” alguém chamando de homossexual é coisa da época em que se chamava de “veadinho” quem usava botões.

Vamos tentar evoluir um pouquinho e aceitar as diferenças? Vamos?

Uma vez, uns amigos gaúchos me explicaram porque Pelotas tem fama de ser “terra de veado”.

A região onde fica a cidade, nos séculos acumulava muita riqueza devido ao charque que produzia. Com esse dinheiro, os fazendeiros mandavam as crianças para a Europa, em busca de um melhor estudo e instrução.

O que acontecia quando voltavam da Europa com um costume diferente, com trajes europeus, pomposidade e educação? “É veado”, claro.

Eram considerados “efeminados” comparados ao resto da população Riograndense.

E tome mais “Botões x Fecho Eclair” cuspidos pela nossa sociedade.

“Tá Diogo, mas aonde você quer chegar com isso?”

Você não consegue perceber, jovem Padawan, que tudo isso influencia diretamente no estilo de vida que levamos hoje?

“Claro que não. Hoje homem usa zíper sem problema! Botão, no máximo, em traje social”.

Nossa, caraquevivenaminhacabeça. Como você é teimoso.

Você acha isso mesmo? Então você pode me dizer porque em roupas masculinas os botões são todos pela frente dos trajes e nas roupas femininas são nas costas?

Eu deixo você pesquisar do google. Vai lá dar uma olhada. Olhou? Não né? Eu sabia. Mas tudo bem, facilito aqui pra você ó:

“ (…) Há muito tempo atrás, as pessoas usavam muito mais roupas do que hoje (assim como provavelmente tomavam menos banho).

Os homens podiam usar coletes, calças, polainas de lã e jaquetas. Já as mulheres, desde aquela época, incrementavam bem mais o vestuário: podiam usar uma dúzia ou mais de peças, como saias, calça esporte, vestidos, espartilhos e anquinhas.

Principalmente entre a classe alta, as empregadas domésticas e funcionários passavam horas vestindo a dona da casa. Logo, inverter os botões na roupa das mulheres tornava o trabalho mais rápido e mais fácil. Com os homens, que se vestiam sozinhos, a inversão não era necessária.

E por que esta tradição dura até hoje, se as mulheres claramente se vestem sozinhas? Por nenhuma razão, a não ser que é um costume e poucas pessoas sequer percebem ou reclamam dessa curiosidade.”

“Poucas pessoas sequer percebem”, percebeu?

Por que? Porque o ser humano é assim. Ele se adapta. Ele prefere padrões. Ele prefere o conhecido. Imagina a bagunça, o cansaço mental que seria, se todo mundo fosse diferente um do outro? Ia ser coisa de maluco né? Ainda bem que temos você aqui para separar perfeitamente o que é “coisa de macho” e o que é “coisa de veado”. Obrigado.

Vixe… acho que o post acabou aqui.

Ah, não, espera, lembrei de outra coisa.

Sabe Pelotas, de que falei ali em cima? Em São Paulo há o equivalente: Campinas.

Por que Campinas é conhecida como “cidade de veado”?

Lá pela década de 30, o filho do prefeito de Campinas, organizou uma caravana para irem ao Carnaval do Rio de Janeiro (onde ele estudava medicina). E lá foram eles para a capital do Brasil, vestidos de mulher, para curtir a folia.

Mas sabe como é. Década de 30. Botões, fecho eclair, etc…

Tinha até uma coisa chamada de “lei”, que proibia as pessoas, vejam só, de se travestir e de cometerem atos de pederastia (sim, nessas palavras).

Aí, a policia parou esse pessoal. Aí eles foram presos. Aí foram parar no jornal. Aí, POW, Campinas virou “cidade de veado”.

Absurdo né? Principalmente em haver uma lei que pune a “pederastia”. Coisa bem antiquada. Ainda bem que a Rússia tá aí pra mostrar pra gente que essas coisas não existem mais.

No texto sobre “mulher usar calças” que fiz há algum tempo no blog, cometei sobre como as leis acabam sendo deturpadas ao longo do tempo. Acho que esse trecho cabe aqui para encerrar esse post:

“ (…) Não sei se vocês sabem, mas as leis existem para servir as pessoas. Não as pessoas que existem para servir a lei. Ao Estado é permitido apenas aquilo que a lei permite. Ao cidadão, é permitido tudo o que a lei não proibe.

Quando o Estado decide perdoar as multas dadas aos carros que furarem o sinal durante a madrugada, ele está reconhecendo que ele, o Estado, não tem como garantir a segurança daquele cidadão àquela hora da madrugada.

Da mesma forma, quando Estado cria uma lei para proteger a mulher da violência doméstica, ele está reconhecendo que ele, o Estado, não tem como controlar a construção social criada por nós. O que ele pode fazer é proteger a parte mais “fraca” desse processo (não fraca porque não pode se defender. Mas fraca porque a sociedade é voltada a privilegiar um dos gêneros).

Algumas pessoas podem não entender porque existe o feminismo. Mas se é algo que ainda se precisa explicar, fica claro que ele ainda é necessário.”

Machismo existem desde os tempos que zíper era “coisa de veado”. Que é um “conceito” bem variável, diga-se.

Mas não é difícil perceber esse tal de machismo agindo não, viu?

É só matutar aí com seus botões.

 

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